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O CASAMENTO DE JULIA

O CASAMENTO DE JULIA

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Ilustração Márcia Széliga

 

Duas senhoras polacas se encontraram. Em dado momento concluíram que uma tinha um filho em idade de casar e a outra uma filha também em idade de casar. Assim foram as duas até o padre e marcaram o casamento dos dois. Uma vez marcado o casamento corriam os proclamas que eram lidos pelo padre na missa de domingo. Era costume que na missa do primeiro proclama a moça que iria se casar fosse à missa com a sua melhor roupa, algumas até faziam novas vestes para essa ocasião. Julia foi à missa de domingo com suas vestes simples de dia de semana, quando o padre anunciou:

– Casamento de Julia Sługa com Francisco Skora.

E nesse momento de surpresa e espanto, sentindo como se um raio de morte a tivesse atingido, não sabendo para onde fugir ou o quê fazer minha bisavó Julia soube que iria se casar.

Como acomodou seu coração a essa nova realidade? Eu desconheço. O fato é que ela assim … casou. 

 

 

 

 

 

A PRIMEIRA IGREJA NA COLÔNIA SANTA CÂNDIDA – 06/01/1877

A PRIMEIRA IGREJA NA COLÔNIA SANTA CÂNDIDA – 06/01/1877

O presidente de província Adolpho Lamenha Lins esforçou-se logo de inicio em dotar a colônia de uma capela para o cultuo religioso dos colonos. Assim no próprio ano de fundação destinou um terreno de 76.681 metros quadrados e nele autorizou a construção de uma capela. Em seu relatório governamental de 1877 p. 84 e 85 assim descreve:

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Primeira Igreja da Colônia Santa Cândida benzida e inaugurada no dia 06/01/1877.

“Ultimamente terminou-se a construcção da capella que já foi entregue ao culto. É um edifício elegante, bem construído e está bem ornado e servido de paramentos, importando a despeza total em 6:397$000 (seis contos, trezentos e noventa e sete mil réis).”

Padre João Wislinski, em seu livro de crônicas, dá maiores detalhes dessa primeira igreja de Santa Cândida.

“… Era um quadrilátero de pedra até as janelas e depois de tijolos até a cobertura. Os tijolos procediam da Olaria Strese do Bacacheri, onde atualmente possui a Olaria Silvio Colle. O Sr. Strese era alemão católico. Os tijolos de sua Olaria eram muito bons, que hoje é difícil encontrar. No ano de 1910, do tempo do Pe. Leon Niebieszczanski, foi construído o presbitério em estilo gótico e duas pequenas sacristias. Anteriormente foi acrescentado na frente “babiniec” (lugar para as mães com nenês), de sorte que o comprimento de toda a Igreja tem 27 metros e a largura 6,40 metros. Não havia torre, somente ao lado campanário de madeira com dois sinos e sineta (“sygnaturka”).

Esta primeira Igreja de Santa Cândida tinha três altares, o principal de estilo imperial com a imagem de madeira 80 cm de altura de Santa Cândida, …  e dois altares laterais nos quais estavam uma pequena imagem do Sagrado Coração de Jesus e de Nossa Senhora do Rosário.”

A capela foi solenemente benzida e inaugurada no dia dos santos reis (6 de janeiro) de 1877, com uma procissão que partiu de Curitiba, com cerca de 2.000 fieis, inclusive o próprio presidente da província, conduzindo uma imagem de Santa Cândida de 80 cm de altura, doada que fora pelo imperador D. Pedro II e adquirida em Lisboa.

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à esquerda: Imagem de Santa Cândida de 80 cm de altura, doada pelo imperador D. Pedro II, adquirida em Lisboa e entregue a colônia Santa Cândida em 06/01/1877. À Direita: Altar principal em estilo imperial com a imagem de madeira 80 cm de altura de Santa Cândida da primeira igreja da colônia que foi transferido para a segunda igreja.

O jornal governista, Dezenove de Dezembro, assim registrou o translado da imagem de Santa Cândida da matriz de Curitiba para a respectiva colônia.

“… os colonos dos arredores da capital em numero superior a dois mil, seguidos de uma multidão de fieis desta cidade, formaram a procissão que desfilou pela estrada da Graciosa até a bella colina onde está construída a elegante capella da colônia. A colônia Argelina (leia-se Santa Cândida) empavesou-se com arcos de folhagens, onde se liam inscrições relativas … uma comissão de meninas vestidas de branco, em nome da infância a quem S. Ex. (Lamenha Lins) fornece com tanta liberalidade o pabulo da instrução, depoz nas mãos do benemérito presidente singela e muito significativa manifestação. Os colonos de Argelina (leia-se Santa Cândida) fizeram-se representar por sua vez perante S. Ex. exprimindo-lhe a satisfação que experimentam diante dos progressos da colonização …. O povo aglomerado na collina, onde foi edificada a capella, oferecia aos que chegavam um imponente espetáculo. … Os distintos encarregados do alojamento dos imigrantes, e agente da colonização as suas expensas distribuíram pão e carne entre os colonos, que compareceram a festa.”

 

E assim passou o tempo e a capela foi servindo a seu propósito quando em 1929 o padre Paulo Warkocz iniciou a construção da nova Igreja.  Pe. Paulo foi transferido para Irati em janeiro 1931 e coube ao Pe. João Wislinski que assumiu a paróquia em dezembro de 1931 concluí-la. Há duras penas, com diversas paralisações, por falta de dinheiro, a nova igreja foi concluída e em maio de 1936 nela foi rezada a primeira missa.

 

Então no dia 19 de fevereiro de 1940 procedeu-se a demolição dessa primeira igreja da colônia. A respeito dessa demolição Pe. Wislinski assim escreve em suas crônicas:

“Como a antiga Igreja estava em outro lugar, do outro lado da estrada, poderia ter sido conservada, pois, a construção era muito sólida. Poderia servir como residência paroquial. Infelizmente, somente 2 metros de distância, foi erguida a nova imponente Igreja, de tal sorte que, ficou entre a nova Igreja e o Cemitério paroquial. Tinha que sucumbir à demolição. O povo, principalmente os idosos e adultos lamentavam, quando começaram demolir as paredes da “velhinha”. Não é de admirar, pois, elas eram tão antigas como a estadia deles em Santa Cândida. Foi nela que eles contraíram matrimônio, batizaram os seus filhos, dela conduziam os primeiros colonos pioneiros, os seus familiares, para o descanso eterno no Cemitério ao lado. Foi nela que ouviam a Palavra de Deus, purificavam-se dos pecados, alimentavam a alma com as orações e a Sagrada Comunhão. Foi lá que eles hauriam força e coragem nos momentos difíceis, sobretudo nos primórdios na Terra Brasileira. – O que fazer! Assim é na vida dos homens, os idosos deixam lugar aos novos; amada e venerável, a primeira Igreja católica em Santa Cândida desceu ao sepulcro, fazendo lugar para a sua nova e suntuosa sucessora, … cabendo a esse padre o triste dever de pôr no sepulcro esta primeira Igreja de Santa Cândida na colônia de Santa Cândida.”

 

Pe. João Wislinski ainda relata:

 

Os trabalhos (de demolição) foram conduzidos pelo Sr. Matias Walecko, em substituição ao mestre de obras José Kowalczyk de Curitiba. Tudo levou um mês de trabalhos diários, terminaram na quarta-feira Santa, 21 de março. Ajudaram cerca de 100 famílias voluntárias. Os meninos de 12 a 15 anos ajudaram muito na limpeza dos tijolos e carregamento de entulhos. As despesas da demolição se elevaram a 768$500 (setecentos e sessenta e oito mil, quinhentos contos de réis): Matias Walecko, 24 dias …291$000; Francisco Walecko, 24 dias, 200$000; José Kulik, 25 dias, 222$000; Inácio Otto, 11 dias, 55$000.

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Primeira Igreja da Colônia Santa Cândida sendo demolida em fevereiro de 1940.

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Primeira Igreja da Colônia Santa Cândida sendo demolida em fevereiro de 1940.

Da antiga Igreja, foram recuperados 34 mil tijolos em bom estado e 5 mil de meio tijolo. Além disso, 70 m3 de pedra e 32 m3 de areia. Tudo isso serviu para a construção dos muros ao redor da Igreja e ampliação do cemitério. A venda das telhas e da madeira da antiga Igreja rendeu 1.028$300 (hum conto, 28 mil e trezentos réis).”

 

FONTE:

PARANÁ. Relatório do presidente Adolpho Lamenha Lins … 1877, p. 84-85.

FEDALTO. Pe. Pedro. A Arquidiocese de Curitiba na sua história. Curitiba, 1958, s/ed. p. 117.

DEZENOVE DE DEZEMBRO. Curitiba, 10 jan. 1877.

WISLINSKI.  Pe. João. CRÔNICA DA PARÓQUIA DE SANTA CÂNDIDA – PARANÁ E DA CASA DOS PADRES da MISSÂO DO ANO DE 1932 – 1945. Tradução livre feita pelo Pe. Lourenço Biernaski, CM. Curitiba, 10 de dezembro de 2012.

Mangual (cep): Instrumento agrícola para debulhar cereais

Mangual: Instrumento agrícola para debulhar cereais

Mangual  (em polonês e em silesiano escreve-se Cep e lê-se tsep) é um instrumento através do qual se malha cereais para debulhá-los. Consiste em um pedaço de madeira comprido e fino no qual se sustenta a base, chamado de mango, que serve de cabo. Esse cabo é ligado por uma correia de couro, chamada por sua vez de inçadouro, a um outro, curto e grosso, o pírtigo, que percute as hastes da planta, que são geralmente trigo e cevada. Na Colônia Santa Cândida era utilizado para malhar trigo, centeio, cevada e também o feijão.

 

“Cep” é uma palavra utilizada pela línguas eslavas.

Em russo escreve-se “цеп” (“u com cedilha”, “é” e “pi”) e lê-se tsep.

Em ucraniano escreve-se “ціп” (“u com cedilha”, “i” e “pi”) e lê-se tsip.

Em biela-russo escreve-se “цэп” (“u com cedilha”, “é invertido” e “pi”) e lê-se tsip.

As línguas acima relacionadas utilizam o alfabeto cirílico com pequenas variáveis entre elas.

Em polonês escreve-se “Cep” em letras latinas. O plural de “Cep” é “Cepy” e lê-se tsepi.

 

Assim temos ” jeden cep – dwa cepy”

Mangual

 

Mangual (cepy)

Mangual (cepy)

 

FONTE: Internet

Colaboração: Domiciano Spisla e Alexandre Spisla

 

Padre Leon Niebieszczański – Imagens

Imagens do Padre Leon Niebieszczański

Continuando o post anterior sobre o Tiroteio na casa paroquial com Padre Leon Niebieszczański (clique aqui para acessar o post anterior), segue duas imagens do ilustre padre.

Padre Leon Niebieszczański

Padre Leon Niebieszczański

 

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Lista dos Ocupantes dos Lotes da Colônia Santa Cândida Conforme Livro de Conta Corrente N.º 837

Segue a lista dos ocupante dos lotes da colônia Santa Cândida em 1875 à 1877.

 

NOME

Gaspar Skoch
Estevão Otto
Margarida Poykala
Francisco Kulig
Gregório Skora
Urbano Kachel
Mathias Gbur – Miguel Gbur
Thomaz Barick
Thomaz Macioszek – transferido a Andre Baldy em 20 de fevereiro de 1896
Simão Prodlo
Lourenço Manka
Jose Waldera
Braz Kolodrej
Pedro Kachel
Augusto Prodeliky
Theodoro Wosch
Estevão Kachel
Joao Czaja
Leopoldo Czebula
Joao Koch
Thomaz Sprada foi transferido a Anastácia Sprada em 28 de julho de 1898.
Maria Dubiella (Jose Barviki)
Jose Spiada – Anastácio Sprada
Catharina Barbara Nadolny
Julio Rolski transferido a Joao Nadolny em 29 de abril de 1898.
Bartholomeu Wosch – Joao Skroh
Anna Arasmus
Jose Nadolny
Bernardo Walecko (Francisco)
Jacob Otto
Urbano Schneider
Alberto Soppa
Urcula Kubis
Victor Manka
Eduvirgem Walecko (Pedro Walecko)
Thomaz Voicik
Rozalia Stolmach (Frau co Mainka)
Eva Klink
Jordão Julio Clemente
Joao Nicolao Rauzes
Joao Rudetz
Augusto Kampa
Simão Baudy
Gaspar Spisla (Margarida)
Verônica Sveda
Lourenço Makiolka (Rozalia Makiolka)
Antão Woch (Beata Woch)
Francisco Makiolka (Maria Makiolka)
Rozalia Wolecka
Bartholomeo Wosch
Jose Schultz – Joao Soppa
Thereza kroche – Frau co Skroche
Roberto Kubis
Joao Soppa
Pedro Kubis
Ignacio Dittmann
Roque Sluga
Eva Klink
Anastacio Maluszenski (Francisco Kulig)
Mathias Kupka
Bruno Muciossek – Lucas Muciossek
Rozalia Kania
Thomaz Wenki
Jose Masienski

LOTE Nº 

1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
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59
60
61
62
63
64

RESUMO: Este núcleo é dividido em 64 lotes com a área total de 6130154,03 m2 ou 1266.560,75 braças 2 que a razão de 9,7 réis e os 20% do regulamento geral com mais 50.000 reis de casa por cada lote prefaz a importância de Rs 17:942$766.

FONTE: Livro de conta corrente nº 837, DEAP-PR.

Observação: Transcrição literal do que esta escrito no livro, incluindo nomes riscados.

 

Ordenação Sacerdotal de Domingos Kachel

Ordenação Sacerdotal de Monsieur Domingos Kachel, na Igreja das Mercês, Curitiba – PR. 19 de Dezembro de 1959. Presentes conforme a numeração: 1 – Francisco Serighelli, 2 – Luiz Fernando Serighelli, 3 – Maria Cândida Kachel, 4 – Fatima Kachel, 5 – Não identificado, 6 – Augusto Spisla, 7 – Edwirges Machoski (Starka Kuliska), 8 – Regina Kulik Kachel, 9 – Padre Fabiano Kachel, 10 – Padre Domingos Kachel, 11 – Padre João Wilinski, 12 – Lodovico Kachel, 13 – Pedrinho Wosch, 14 – Blanca Kachel, 15 – Regina Serighelli, 16 – Silvia Kachel, 17 – Rogério Spisla, 18 – Hotélia Kachel, 19 – Domingos Spisla, 20 – Maria Joana Kachel Serighelli, 21 – Silvia Rachel Kachel Serighelli, 22 – Adir Serighelli, 23 – Não identificada, 24 – Não identificado, 25 – Francisco Wosch, 26 – Pedro Kachel, 27 – Ceriaco Wosch, 28 – Não identificado, 29 – Aleixo Schluga, 30 – Não identificado, 31 – Vicente Spisla, 32 – Não identificada, 33 – Antonia Kachel Spisla, 34 – David Kachel, 35 – Não identificado, 36 – Gregório Wosch, 37 – Philomena Kachel Schluga, 38 – Paulo Kulik. Ordenação Sacerdotal de Monsieur Domingos Kachel, na Igreja das Mercês, Curitiba – PR. 19 de Dezembro de 1959.

Ordenação Sacerdotal de Monsieur Domingos Kachel, na Igreja das Mercês, Curitiba – PR. 19 de Dezembro de 1959. Presentes conforme a numeração: 1 – Francisco Serighelli, 2 – Luiz Fernando Serighelli, 3 – Maria Cândida Kachel, 4 – Fatima Kachel, 5 – Sérgio Spisla, 6 – Augusto Spisla, 7 – Edwirges Machoski Kulik (Starka Kuliska), 8 – Regina Kulik Kachel, 9 – Padre Fabiano Kachel, 10 – Monsenhor Domingos – Padre Domingos Salomão Kachel, 11 – Padre João Wilinski, 12 – Lodovico Kachel, 13 – Pedrinho Wosch, 14 – Blanca Kachel, 15 – Regina Serighelli, 16 – Silvia Kachel, 17 – Rogério Spisla, 18 – Hotélia Kachel Spisla, 19 – Domingos Kachel Spisla, 20 – Maria Joana Kachel Serighelli, 21 – Silvia Rachel Kachel Serighelli, 22 – Adir Serighelli, 23 – Não identificada, 24 – Roque Spisla, 25 – Francisco Wosch, 26 – Pedro Kachel, 27 – Ceriaco Wosch, 28 – Não identificado, 29 – Aleixo Schluga, 30 – Estanislau Spisla, 31 – Vicente Spisla, 32 – Longuina Klenk Kachel, 33 – Antonia Kachel Spisla, 34 – David Kachel, 35 – Não identificado, 36 – Gregório Wosch, 37 – Philomena Kachel Schluga, 38 – Paulo Kulik. Foto: acervo Tereza (Kulik) Czepaniki

 

A POLACA E O PENICO

A POLACA E O PENICO

 

Dobrą i piękną miskę – Boa e bonita tigela

A polaca ganhou de presente um penico. Esqueceram, no entanto, de lhe informar a que servia o dito objeto. Não sabendo, achou que fosse uma tigela com orelha. Gostou muito e achou muito boa para colocar leite para coalhar. Quando foi à cidade comprou mais alguns. Mais tarde, quando uma amiga lhe visitou, mostrou orgulhosa suas tigelas com orelhas, cheias de leite para coalhar.

 

A PRÉ-HISTÓRIA DE SANTA CÂNDIDA – Parte III

A POLÍTICA DE IMIGRAÇÃO NA PROVÍNCIA DO PARANÁ

A PRÉ-HISTÓRIA DE SANTA CÂNDIDA – Parte III

 

Adolpho Lamenha Lins nasceu em 27 de junho de 1845, na cidade do Recife, em Pernambuco, onde também estudou e recebeu o título de bacharel em Leis no ano de 1867. De família abastada e tradicional, neto de marquês e filho do coronel Bento Jose de Lamenha Lins, do qual ficou órfão aos sete anos. No dia 08 de dezembro de 1865, desposou sua sobrinha materna, Maria Leonor Corrêa de Sá e Benevides. Esta lhe deu um filho, Bento Jose de Lamenha Lins em 29 de agosto de 1866 e o deixou viúvo, aos 22 anos, em 19 de julho de 1867. Em 1874, casou-se pela segunda vez. Agora com Cândida de Oliveira. Tiveram três filhos: os dois primeiros, com o nome do pai, jazem em cemitérios de Curitiba. Virgilio, o terceiro, sobreviveu.

Lamenha Lins iniciou a sua carreira política exercendo o cargo de promotor público na Província de Alagoas. Na sequência, além de secretário do governo e deputado da Província de Pernambuco, foi também diretor da Sociedade Emancipadora do Recife. Antes de ser nomeado pelo governo imperial para assumir a presidência da Província do Paraná, já havia presidido a Província do Piauí no ano de 1874, porém não permaneceu no cargo, tendo solicitado, exoneração naquele mesmo ano. No Paraná, ocupou o cargo de presidente de província, “sendo nomeado através de um ato imperial em 10 de abril de 1875, tomando posse no dia 8 de maio” (SANTOS, 1995, p. 238).

Politicamente era considerado liberal, tendo sido um “partidário entusiástico do movimento em prol da libertação dos escravos…”

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Lamenha Lins

Homem de ação, bom político, hábil e simpático no trato com as pessoas, logo superou a frieza com que fora recebido. Em pouco tempo, por essas qualidades e pela firmeza, bom senso e serenidade que imprimia aos atos governamentais, conquistou a amizade e o respeito dos paranaenses. (SANTOS, 1995, p. 239 e 240).

No Paraná sua administração deu grande desenvolvimento ao ensino, sobretudo secundário: reformou o Liceu Paranaense e criou a Escola Normal. Também o ensino primário recebeu benéfico influxo, com a melhoria cultural dos professores. Lançou as bases para a construção da catedral de Curitiba, cabendo-lhe a responsabilidade de ordenar a demolição da velha, histórica e tradicional matriz do século XVIII, cujas torres, levantadas em 1855, saíram do prumo e desarticularam a taipa da vetusta edificação descrita por Saint Hilarie (CARNEIRO, 1994, p. 262).

Mas foi a colonização a principal meta de sua administração. Uma das suas primeiras atitudes ao assumir o governo foi ver “in loco” a situação da colônia Assungui, que assim relata.

Não podendo demorar-me por mais tempo, para percorrer todo o território, fui aos lotes dos colonos mais antigos e que me diziam serem os mais bem estabelecidos; observei, porem, que a lavoura se limitava a plantação de algumas laranjeiras, bananeiras e a cultura de canna em muita diminuta escala. Estes mesmos colonos, considerados em melhores condições, mal tiram de sua lavoura o preciso para o seu sustento,… (LAMENHA LINS, 1875, p. 82)

Além, da colônia Assungui, Lamenha Lins tomou conhecimento das demais experiências de colonização da província, dentre elas: Superagüi, Ivaí, Alexandra, Eufrasina, Pereira e Colônia Militar do Jataí e dos Aldeamentos de São Pedro de Alcântara, de São Jerônimo e de Parapanema, e ainda das colônias municipais existentes no rocio de Curitiba: Colônia Argelina (1869), Pilarzinho (1871) e Abranches (1873).

Assim Lamenha percebeu que as experiências colonizadoras realizadas em regiões afastadas e isoladas (por exemplo Assungui), ocasionavam a decadência dos núcleos, além de gerarem aos cofres públicos grandes investimentos com diminutos resultados. Os colonos já instalados nos arredores de Curitiba estavam satisfeitos e prósperos, além de apresentarem para a sua instalação custos bem menores.

Semelhante aos outros presidentes da província, Lamenha almejava atrair correntes de imigração espontânea. Mas para o alcance dessa meta, algumas mudanças, que variavam desde a abordagem feita ao imigrante, ainda em seu país, até o transporte dessas pessoas, precisariam ser implantadas. As seis melhorias propostas por ele, tidas como bases para a política de imigração em seu governo foram:

    • Dizer a verdade ao imigrante sobre a nova pátria que vem procurar e, em vez de poéticas descrições e exageradas promessas, convencê-lo de que temos a seu alcance terras fertilíssimas, e promovemos a construção de boas vias de comunicação.
    • Facilitar-lhe o transporte, evitando que o imigrante sofra privações e mau tratamento até o termino de sua viagem.
    • Dividir bons lotes de terras nas vizinhanças dos centros populosos e fazê-los comunicáveis por estradas de rodagens.
    • Fazer o colono aderir à terra que habita, pelo direito de propriedade, facilitando-lhe a aquisição dela.
    • Evitar que o imigrante, ao chegar, sofra vexames que lhe abatam o animo, aos seus primeiros passos em regiões desconhecidas.
    • Estabelecer bem o colono, com todos os favores prometidos, e depois libertá-lo de qualquer tutela, deixando-o sobre si, e entregue ao desenvolvimento de sua própria iniciativa.

Foi com base nessas considerações teóricas, apresentadas no relatório de 1876, que o presidente Lamenha Lins fundou, em torno de Curitiba, um verdadeiro círculo de colônias organizadas com imigrantes europeus. No relativamente curto período de sua gestão frente ao governo da Província do Paraná, fundou as colônias de Santa Cândida, Orleans, Dom Pedro, Dom Augusto, Tomás Coelho, Lamenha Grande, Lamenha Pequena, Santo Inácio e Reviere.

Em relação a sua gestão na Província do Paraná, a historiografia afirma que ele teria implantado um novo sistema de colonização, fundando diversas colônias nos arredores de Curitiba, diferentemente dos modelos já organizados na província e até mesmo no Brasil. A esse sistema deu-se o nome de Linismo, e a colônia Santa Cândida passou a ser considerada a pioneira dentro dessa filosofia.

Por conta dos gastos por ele empreendidos, sua gestão foi bastante criticada, pois foi grande o número de obras executadas no decorrer do seu governo, sejam elas direcionadas a reformas de estradas, alargamento ou abertura das mesmas, assim como na construção de pontes, capelas entre outros empreendimentos, como a compra dos lotes para o assentamento dos numerosos imigrantes recebidos entre os anos da sua administração.

Os jornais que eram veiculados no período traziam mais detalhes dessas críticas, principalmente no fim da gestão de Lamenha Lins, como exemplifica o trecho publicado no jornal Província do Paraná, sob o título “Parabéns à Província”:

Acha-se, afinal, destituído da presidência desta província o atrabilitário pró-consul que tantos e tão grandes males tem derramado sobre ela, no longo período da mais nefasta administração que tem infelicitado o Paraná.

Assim, Lamenha Lins é destituído em 16/07/1877. O linismo então, apesar do sucesso inicial, é passado a segundo plano e recebe duras criticas.

A província do Paraná é tomada por uma onda de regozigo e entusiasmo com a presença de imigrantes russos-alemães, que são assentados nos campos gerais, longe dos centros de consumo, em oposição ao modelo linista. Mas em pouco tempo essa colonização vai se revelando um fracasso. Enquanto isso, os imigrantes estabelecidos nos arredores de Curitiba, particularmente os de Santa Cândida, solicitam ao presidente da província passagem para suas famílias residentes na província da Silésia – Reino da Prússia, que desejavam emigrar para o Brasil e estabelecer-se na circunvizinhanças de Curitiba.

Na década de 1880 a província reassumiu alguns dos princípios do linismo e surgiram novas colônias ao derredor de Curitiba.

“… atrair o colono é pouco, localiza-lo convenientemente, eis tudo. …” (OLIVEIRA 1884, p. 15).

Em 1903 quando Tobias Monteiro visitou o Paraná, ele apresenta o seguinte relato:

Em volta da cidade cresce a raça nova, que já a invadiu, ostentando na frente das casas de commercio os seus nomes de origem. Foi o finado presidente Lamenha Lins, pernambucano e pai do deputado federal de igual nome, o benemérito administrador que primeiro fundou nos arredores de Curityba núcleos de população europea. Ao principio accusaram-no de comprar caro os terrenos, allegando-se que longe no interior poderia obter grandes extensões por preço muito menor. Mas elle respondia com razão ser inépcia reunir colônias longe dos centros populosos e boas estradas, pois os seus productos não teriam consumo. Hoje, todos verificam o acerto das suas resoluções (MONTEIRO, 1903, p. 12).

Lamenha Lins e Santa Cândida

O presidente de província Lamenha Lins revelava certa simpatia pela colônia Santa Cândida, pois foi nesta colônia que inicialmente colocou em prática suas concepções sobre como deveria processar-se a colonização estrangeira na província. Os colonos de Santa Cândida, por sua vez, também lhe eram muito gratos, a ponto de expressarem essa gratidão na forma de um quadro, com o retrato do Lamenha Lins, na sacristia da igreja, com a seguinte legenda:

Tributo de gratidão e lembrança que a memória do ex-presidente e Inspector Especial de Colonisação Dr. Adolpho Lamenha Lins, fallecido na Capital da Província de Pernambuco a 4 de setembro de 1.881; consagrado Agente de colonisação d’esta Província do Paraná pelo mesmo finado Dr. Lamenha Lins. Este retrato que fique para memória collocado na sacristia da Capella de Santa Cândida. Curityba, 20 de outubro de 1881. Joao Baptista Brandão Proença.

Lamenha Lins faleceu em sua cidade natal, Recife, em 4 de setembro de 1881, com 36 anos de idade. Hoje o retrato da sacristia aguarda por restauração na casa paroquial, e o nome Lamenha Lins esta ligado a uma das colônias por ele fundadas e também se faz presente numa longa Rua de Curitiba, na qual esta estabelecido o Colégio Estadual Presidente Lamenha Lins.

 

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Giselle Cardoso de. Formação do Bacharel em Direito no século XIX. 2006. Disponível em: http://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/2967/Formacao-do-Bacharel-em-Direito-no-seculo- Acessado em: 26/04/2014

BOLETIM  Informativo da Casa Romário Martins. Santa Cândida, pioneira da colonização linista. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, ano 2, n. 16, dez. 1975.

CARNEIRO, David. História do período provincial do Paraná: Galeria de presidentes da província. Curitiba: Banestado, 1994.

MONTEIRO, Tobias. Do Rio ao Paraná. Rio de Janeiro: Jornal do Commercio, 1903.

OLIVEIRA, Basílio Augusto Machado de. Relatório do presidente da província, 1884.

PARANÁ. Relatório de Presidente de Província do Paraná Dr. Adolpho Lamenha Lins apresentado a Assembléia Legislativa do Paraná em 15 de fevereiro de 1876. Curityba: Typ. da Viúva Lopes, 1877.

POLINARSKI, Flaviane da Silva. A representação sobre a imigração nos discursos de Adolpho Lamenha Lins (1875-1877). Curitiba: Monografia em Licenciatura e Bacharelado em História, UFPR, 2008.

SANTOS, Ayrton Ricardo dos. Lamenha Lins e o engenho central de Morretes. BIHGEP, vol. XLIX, 1995.

SKORA, Felippe. O Arauto, Jornal paroquial, julho/agosto/1996, Historia de Santa Cândida (19).

A PRÉ-HISTÓRIA DE SANTA CÂNDIDA – Parte II

A POLÍTICA DE IMIGRAÇÃO NA PROVÍNCIA DO PARANÁ

A PRÉ-HISTÓRIA DE SANTA CÂNDIDA – Parte II

 

No Paraná, desde meados do século XIX, a política imigracionista foi colocada em destaque pelos seus responsáveis políticos. Ganhando ainda mais força após sua emancipação da província paulista em 1853. Basta uma breve análise nos relatórios dos presidentes da província para que se constate isso.

Relatório do presidente da província do Paraná, Francisco Liberato de Mattos, na abertura da Assemblea Legislativa Provincial em 7 de janeiro de 1858. Curityba, Typ. Paranaense de C. Martins Lopes, 1858.   http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/620/000039.html

Relatório do presidente da província do Paraná, Francisco Liberato de Mattos, na abertura da Assemblea Legislativa Provincial em 7 de janeiro de 1858. Curityba, Typ. Paranaense de C. Martins Lopes, 1858, p. 35.
http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/620/000039.html

 “É este um dos assumptos que na actualidade mais prende a atenção do governo imperial e de todos aquelles que pensam no futuro que está reservado ao nosso paiz. Povoar os nossos immensos e desconhecidos territórios, levar a vida aos sertões onde a açção dos séculos amontoou thesouros de rara valia, e que ali fazem entregues ao esquecimento, eis o grande pensamento em que se fundaram todas as aspirações dos brazileiros” (ABRANCHES, 1875, p. 21).

A jovem província tem sua economia baseada na criação de gado nos campos gerais, nas suas invernadas que engordavam o gado proveniente do Rio Grande do Sul e Corrientes, e na indústria extrativista do mate, em franco desenvolvimento.  Pela própria exigência dessa economia, os paranaenses se condicionaram a hábitos nômades, dando-se muito bem na profissão de criadores, tropeiros e comerciantes (mascates). É importante ressaltar que os habitantes do planalto curitibano empenhavam-se no cultivo da erva-mate, deixando assim uma lacuna na produção de alimentos agrícolas que torna a província dependente de outras e ate mesmo consumidora de produtos importados.

 “ …repugnante a grande massa de nossa população. O homem que se aluga por 12 ou 15$000 rs por mês para tanger uma tropa, não aceita com gosto um patacão por dia para roçar. Daí provem que as plantações mal excedem as forças do consumo pessoal do nosso agricultor (….) (CÂMARA. 1860, s/p)

As grandes lavouras brasileiras exigiam muito empenho e dependiam praticamente da mão-de-obra escrava, que por sua vez, tornava-se cada vez mais escassa por conta da proibição do tráfico de escravos.

 

“O fator imediato e concreto era constituído pela grande pressão da demanda de braço cativo para a cafeicultura, com a consequente mobilização da escravaria em direção, principalmente, às fazendas paulistas (NADALIN, 2001, p. 71).

Assim, os escravos, que já eram em baixo número na província, em alguns casos, acabaram sendo revendidos para os grandes cafeicultores, o que “veio a agravar os problemas relativos ao sistema de abastecimento de gêneros alimentícios” (Id., 2001, p. 71).

Esses, entre outros fatores, levaram os produtos de subsistência, como o feijão, o arroz e a farinha de mandioca, a uma inflação galopante.

Carlos Perret Gentil, fundador e diretor da colônia particular de Superagui, ao norte da baia de Paranaguá, informa que, a partir de 1852, os preços dos gêneros alimentícios chegaram a subir “numa proporção de 200%” (GENTIL, 1858, s/p).

Nesse contexto de mão-de-obra escassa, falta de gêneros alimentícios de primeira necessidade, o incentivo à imigração de europeus em prol do trabalho braçal foi tido como um dos pilares para a criação de uma agricultura de abastecimento e subsistência. Já no ano de 1855, uma lei foi posta em vigor na província paranaense. Segundo ela, o governo ficaria, desde então, autorizado a promover a imigração de estrangeiros.

 

REFERÊNCIAS

Fontes Principais

POLINARSKI, Flaviane da Silva. A representação sobre a imigração nos discursos de Adolpho Lamenha Lins (1875-1877). Curitiba: Licenciatura e Bacharelado em História – UFPR, 2008.  [Monografia]

BOLETIM.  Informativo da Casa Romário Martins. Santa Cândida, pioneira da colonização linista. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, ano 2, n. 16, dez. 1975.

 

Outras fontes

ABRANCHES, A. Relatório apresentado a Assembleia Legislativa Provincial do Paraná em 15 de fevereiro de 1875 pelo presidente Araujo Abranches. Curityba: Typ. Da Viúva Lopes, 1875.

CÂMARA MUNICIPAL DE CURITIBA. Oficio da Câmara Municipal de Curitiba ao presidente da Província, Francisco Liberato de Mattos, de 07.01.1858. OFFICIOS, 1860, vol. 2. Arquivo Publico do Paraná, doc. Manuscrito.

NADALIN, Sérgio Odilon. Paraná: Ocupação do Território, População e Migrações. Curitiba: SEED, 2001.

GENTIL, Carlos Perret. Oficio do fundador e diretor da colônia de Superagui, Carlos Perret Gentil, ao presidente da Camara Municipal de Paranaguá, Manuel Antonio Guimarens, de 15.11.1857. OFFICIOS, 1858, Vol. 2. Arquivo Publico do Paraná, doc. Manuscrito.

A PRÉ-HISTÓRIA DE SANTA CÂNDIDA – Parte I

ASPECTOS GERAIS DA IMIGRAÇAO NO BRASIL

A PRÉ-HISTÓRIA DE SANTA CÂNDIDA – Parte I

 

Para entendermos a criação da Colônia Santa Cândida, vamos retroceder na história do Brasil a fim de conhecer os fatos que proporcionaram seu nascimento.

O Brasil “nasce” para o mundo “civilizado” no ano de 1500, como propriedade de Portugal. No entanto, no ano de 1808, graças a Napoleão Bonaparte, a corte portuguesa se transferiu para o Brasil. Logo após sua chegada, D. João sancionou um decreto permitindo acesso à propriedade fundiária a estrangeiros. Essa iniciativa visava beneficiar o número significativo de portugueses que acompanhou a família real, bem como atrair imigrantes a fim de estabelecê-los em áreas despovoadas. Como resultado, um grande contingente de imigrantes aportou em território brasileiro. Imigrantes não apenas portugueses, “mas espanhóis, franceses e ingleses que viriam a formar uma classe média de profissionais e artesãos qualificados” (FAUSTO, 2002, p. 127).

Nasciam nesse momento as primeiras sementes para a política imigracionista no Brasil.

Essa iniciativa da Corte, porém, não obteve resultados satisfatórios, pois a entrada indistinta de imigrantes, além de outros fatores, culminou em uma sucessão de fracassos desses empreendimentos colonizadores. Diante de tais resultados, no ano de 1830, uma lei posta em vigor passou a coibir qualquer gasto público com a instalação de núcleos coloniais, o que causou um recuo nas iniciativas favoráveis à imigração. Somente após o ano de 1834, através de um ato adicional, o Império repassou também às províncias a responsabilidade de “promover e estimular, em colaboração com o poder central, o estabelecimento de colônias” (HANDELMAN, apud BALHANA et al. 1969, p. 158).  Sabe-se que, após essa iniciativa do governo imperial, os governos locais recepcionaram e dirigiram pequenas levas de imigrantes. Começaram a surgir assim colônias criadas por iniciativa própria ou até mesmo patrocinadas por particulares, como acorreu no Paraná em 1847, ano da fundação da colônia Thereza, pelo médico Dr. Faivre.

Em meados do século XIX a produção do café ganhou espaço no mercado externo e alavancou a economia brasileira. As grandes lavouras exigiam muito empenho e dependiam praticamente da mão-de-obra escrava, que, por sua vez, tornava-se cada vez mais escassa por conta da proibição do tráfico de escravos.

Havia uma grande preocupação por parte do governo e também dos produtores em relação a isso. Para as autoridades influentes, a promoção da imigração de nova mão-de-obra, livre e branca, surgiu como o melhor meio para solucionar esse problema. Além disso, as teorias sobre a eugenia, que já eram bastante fortes na Europa, também refletiram no Brasil o ideal de uma raça branca e pura. Uma das correntes eugenistas acreditava que a miscigenação, ou seja, a mistura entre os ex-escravos e os imigrantes europeus, que já traziam com eles os genes superiores da raça branca morigerada e laboriosa, proporcionaria um futuro geneticamente mais puro à população brasileira. Nesse contexto, “a introdução do imigrante branco, livre, pacifico e trabalhador, representava uma maneira de ajudar a apurar e branquear a raça brasileira e o trabalho” (COLATUSSO, 2004, p. 15).

Ainda com o avanço do sistema capitalista, manter um cativo já não representava bom negócio. Um operário trabalhava por mais horas e após cumprir sua carga horária não tinha mais vínculos com seu empregador. Diferente do escravo, que precisava ser sustentado e assistencializado pelo seu dono, caso ficasse doente, por exemplo.

O tráfico de negros foi abolido com a lei sancionada pelo ministro da justiça, Eusébio de Queirós, em 4 de setembro de 1850. Também na década de 1850, logo após a Lei Eusébio de Queirós, outra lei que se tornaria bastante importante para a política de imigração foi a chamada Lei de Terras. Essa lei, criada em 18 de setembro de 1850, previa que as terras pertencentes ao Império só poderiam ser adquiridas através da compra, ficando assim proibida a outorga gratuita.

 

Anexo terminológico

Eugenia é um termo criado em 1883 por Francis Galton (18221911), significando “bem nascido”. Galton definiu eugenia como “o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações, seja física ou mentalmente”. O tema é bastante controverso, particularmente após o surgimento da eugenia nazista, que veio a ser parte fundamental da ideologia de “pureza racial”, a qual culminou no Holocausto. Mesmo com a maior utilização de técnicas de melhoramento genético usadas atualmente em plantas e animais, ainda existem questionamentos éticos quanto a seu uso com seres humanos, chegando até o ponto de alguns cientistas declararem que é de fato impossível mudar a natureza humana (http://pt.wikipedia.org/wiki/Eugenia).

REFERÊNCIAS

Fonte Principal

POLINARSKI, Flaviane da Silva. A representação sobre a imigração nos discursos de Adolpho Lamenha Lins (1875-1877). Curitiba: Licenciatura e Bacharelado em História – UFPR, 2008.  [Monografia]

Outras fontes

BALHANA, Altiva Pilatti; PINHEIRO MACHADO, B.; WESTPHALEN, C. História do Paraná. Curitiba: Grafipar, 1969, p. 158.

COLATUSSO, Denise Eurich. Imigrantes alemães na hierarquia de status da sociedade luso-brasileira (Curitiba, 1869 a 1889). Dissertação de Mestrado, UFPR: 2004.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. 10ª ed. São Paulo: EDUSP, 2002.

Galton, Francis. Inquiries into human faculty and its development. New York: AMS Press, 1973. ISBN 0404081274

GOLDIM, José Roberto. Eugenia.  UFRGS: 1988. Disponível em: http://www.ufrgs.br/bioetica/eugenia.htm, acessado em: 28.01.2009.